Ontem, eu estava feliz da vida conversando com a minha mulher sobre os meus (ex) alunos que passaram no vestibular e confidenciei a ela que sempre estive preparado para não ser lembrado por eles, visto que eles foram a minha (única) turma no Colégio de Aplicação, mas os mesmos tiveram inúmeros professores. Até entendo se eles se espantarem com o porquê de eu cumprir minha promessa de jamais esquecê-los, mas só eu sei o quanto eles foram importantes pra mim. Não foi minha primeira turma, como já relatei tempos atrás. Mas foi a mais especial. Voltei a ser um adolescente com eles, ao mesmo tempo em que o mestre deles, mantendo-me num patamar superior que os distanciavam um pouco.
Minha memória elefantástica se lembra de inúmeras situações e das particularidades da 8A de 2006 do CAp. Eram 30 alunos e posso falar da maioria com precisão cirúrgica. Mas é obvio que tem os que marcam mais. Não serei hipócrita.
Os 30 são:
Alisson Nunes Pereira
Anderson Alexandre Pires Cavalcante Bem
Aya Konno
Caio Vinícius Lins Azuirson
Danilo Neves Ribeiro
Diego Correia Aragão
Elton Ponce Vila Bela de Oliveira
Felipe Freitas de Alcântara
Fernanda Lima da Silva
Hugo de Moura Lima
Jéssica Laís de Oliveira Souza
Jéssica Lima de França
Joaline Ingracia Santos de Oliveira
Joanna Gabriela Vicente Silva
José Vinícius Gouveia
Juliana de Lira Rocha
Lucas Cesar de Albuquerque
Luciano Santiago Barbosa de Farias
Luiz Guilherme Matos Costas dos Santos
Marcos Paulo Barros Barreto
Maria Cláudia Cicalese Ralino
Pedro Rafael da Silva
Renan Fechine Brito Guimarães
Rodrigo Kühner Câmara dos Santos
Romero Fernando Almeida Barata De Morais
Thaysa Araujo de Lima
Thomás André da Silva Leal
Txai Almeida Ferraz
Victor Gomes Cardoso
Yndira Pessôa Rafael Teles
É!!!
Eu ainda guardo o parecer acadêmico de todos. Então, cuidado garotos, eu sei o passado de vocês.
Dentre as particularidades dessa turma posso citar o “Sexteto” (Jéssicas Ls, Joanna, Yndira, Claudinha e Thaysa). As Jéssicas eram como eu fui com meu xará no colégio também, Joanna era a pequena mexicana, Claudinha e Thaysa as fofas (como diz Vini – “isso é um elogio”) e Yndira a mais calada de todas.
Tinha o grupo do “essa eu levava pra casa” de tão meigas que são (Aya, Joaline e Juliana) e o grupo dos bad boys, é ululante (Caio, Elton, Luiz, Renan e Thomás). Mas, todos, gente boa.
Dentre os quietos e os que raramente iam a aula tem um monte, não é Lucas?
Mas muitos permanecerão amigos, fazendo Computação na UFPE (Danilo, Diego, Marcos Paulo e Romero).
Falando de amigos, tinha os que eu perturbava, era Felipe e sua barba e Luciano e seu cabelo grande, dois excelentes alunos.
Dos que eu aposto que serão legendas, falo dos amigos Vinicius, Txai e Fernanda. Pessoas quase inseparáveis. Quando eu crescer quero ser que nem eles. Os garotos foram pra Cinema e a pequena grande garota foi pra Engenharia.
Toda turma tem o seu cantor bonitão, o dessa era Hugo – o super-romântico. Estou errado, Hugo?
Minha turma era dotada de mentes brilhantes e grandes talentos, para não citar os que já citei, falo de Pedro Rafael (belo segundo nome por sinal), que era novato na época, mas já se mostrava em destaque.
Hoje vejo uma etapa concluída. Eles irão conquistar o mundo agora e descobrir os mais naturais conflitos que constituem a herança da carne. Infelizmente nem todos serão mais amigos. Isso é fato. Infelizmente é fato. Mesmo que no coração estejam sempre próximos, a limitante vida e o tempo escasso se encarregarão de levá-los para caminhos opostos. Falo pela minha experiência e pela de muitos que vieram antes e depois de mim.
É isso.
Amo cada um deles como parte de mim mesmo. Suas vitórias são as minhas. Seus fracassos também.
Essa era e sempre será a minha Oitava A. Mesmo que as memórias deles não tenham espaço pra mim. Hoje entendo os meus ex-professores e seus nostálgicos sentimentos.
Felicidades, amigos!
“Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco até o bê-a-bá”
Treze anos atrás morria um dos maiores gênios da música pernambucana e brasileira, Chico Science. Francisco de Assis França, do alto de seus 30 anos, perdia a vida num acidente fatal em pleno domingo. Recordo muito bem desse dia. Eu estava assistindo um filme na Band/Tribuna, era o Risco Fatal, do Stallone, quando num plantão anunciaram o falecimento de um dos meus ídolos. Como de costume, os bons morrem cedo.
Cresci. E comigo também cresceu o fascínio por todo o Manguebeat.
Ano passado tentei seleção de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE com um projeto que abordava o Movimento Mangue como tema. Porém, eu desconhecia a fascinação de tantos futuros acadêmicos. Ignorância minha, admito. Existem aproximadamente uns 80 trabalhos sobre a referida temática. Por um lado isso é ótimo. Foi péssimo pra mim porque eu não estava inserido nos quesitos do ineditismo. Mas isso é a vida. Lamento, sobretudo, a parca divulgação (pra não dizer nenhuma) dos resultados obtidos com esses trabalhos.
Para o sociólogo e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Cláudio Morais de Souza:
“O manguebeat enquanto fenômeno cultural é resultado da confluência de diversas experiências estéticas/sociais, de um grupo de jovens que através das músicas por eles produzidas começam a delinear uma nova situação (se não diferente), onde o campo artístico se mostra um terreno fértil na produção de uma atitude perceptiva, marcada por um lado, pela necessidade de conhecer o outro e experimentar o diferente, por outro, e ao mesmo tempo, conhecer-se e tornar-se conhecido como parte de uma sociedade marcada por um contexto urbano de forte exclusão social”
O fato é que o “mundo” do manguebeat não consiste apenas de sons produzidos por uma determinada combinação de instrumentos tocados de uma forma característica, é a junção disso com a cultura ao redor, levando-se em conta todos os níveis de interpretação e heurística para a palavra “cultura”, da popular a de Raymond Willians. Sobretudo, se considerarmos o movimento mangue como elo de ligação responsável por unir elementos de manifestações (pós)modernas e globais a elementos da tradicional(ista) cultura popular pernambucana, transformando de forma categórica a realidade local e despertando a participação política da sociedade. Tal participação política é vista por alguns membros da imprensa como a força cultural responsável pela divulgação da política de “esquerda” (PT e PCdoB) que está no seu terceiro mandato consecutivo nas prefeituras de Recife e Olinda, berços do Manguebeat, assim como o Movimento Armorial era o divulgador cultural para o governo de “direita” anterior (PMDB / PSDB-DEM). Utilizando Feathestone para contextualizar o exposto:
“Houve uma mudança mais geral na atitude dos governos nacionais e locais, fundações e corporações, que começaram a perceber as artes como algo socialmente útil. Em suma, o valor econômico do capital cultural aumentou; a partir da década de 60, os artistas deixaram de ser vistos como uma contracultura boêmia, incômoda e transgressora, passando a ser tratados pelos políticos, especuladores e planejadores urbanos como uma vanguarda diferente, que abriu caminho para o redesenvolvimento em larga escala de áreas urbanas baratas e decadentes, mediante a gentrification”.
O Movimento Mangue passa a existir num contexto caracterizado pela ofensiva econômica neoliberal que não contemplava as demandas sociais, abrindo espaço para o surgimento de movimentos de rebeldia e contestação. O Manguebeat vem para expor entre outras coisas a situação de exclusão social, violência e fome dos bairros de periferia de Recife através de sua arte. Utilizando expressões do historiador Eric J Hobsbawm:
“A arte popular é mito e sonho, mas também é protesto, pois o comum das pessoas tem sempre alguma razão para protestar... A arte popular genuína, excepcionalmente vigorosa e resistente, realmente funciona e modifica o mundo moderno, e quais as suas conquistas e limitações”.
Contudo, como música e arte vivem da indústria cultural, o “mercado” vê na valorização do periférico, do exótico, do excêntrico, uma oportunidade de lucro. A indústria simplesmente descobre o mais lucrativo para processar e processa. É próprio da civilização uma busca de exotismos de todos os tipos. A cultura popular nos países urbanizados e industrializados há muito tempo consiste em entretenimento comercializado, padronizado e massificado, transmitido por meios de comunicação como imprensa, a televisão, o cinema, entre outros, produzindo o empobrecimento cultural e a passividade, bem como o consumo de cultura pré-fabricada. Contudo, este é um assunto que deve ser tratado com bastante delicadeza para evitar a utilização de paradigmas nacionalistas e muitas vezes preconceituosos e irresponsáveis.
Como o jornalista da Revista Continente Multicultural, Fábio Araújo, falou uma vez:
“O fenômeno é recente demais para que se façam análises definitivas. Mas, além de devolver Pernambuco ao centro das atenções, resgatar a auto-estima da população e estimular um renascimento cultural que repercutiu em todo o país, o Manguebit deixou pelo menos outro legado: uma série de estudos acadêmicos, que procuram entender o que aconteceu e situar o movimento nos contextos nacional e internacional.”
Possivelmente nunca se esgotarão as interpretações e as análises de uma temática tão rica quanto à do “movimento cultural” desenvolvido no Recife durante a década de 1990. Tal qual a Bossa Nova e a Tropicália o Manguebeat foi amplamente estudado, haja vista o número elevado de trabalhos acadêmicos sobre o tema nos últimos dez anos.
Embora o pensamento de Hobsbawm exposto a seguir tenha sido divulgado há 50 anos e relaciona-se ao Jazz norte-americano, nenhum pernambucano do final do século XX ficaria surpreso caso se deparasse com o seguinte argumento:
“Nossos dias e nossa cultura são carentes de transfusões de sangue periódicas, para rejuvenescer a cansada e exaurida ou enxágue arte de classe média, ou a arte popular, que tem sua vitalidade drenada pela degeneração comercial sistemática e pela superexploração”.
Como é sabido, o Recife e até mesmo o Brasil estavam carentes de algo que os tirassem da inércia, e tudo que os jovens do mangue desejavam eram ação. Com isso a idéia de ‘movimento’ pode ser utilizada para representar o fim de uma inércia na música recifense. E não a de “movimento” como o rock, por exemplo, com raízes e seguidores em todo o mundo e há muitos anos.
O manguebeat já foi estudado como um movimento híbrido, pós-moderno, globalizado, mundializado e dono de uma antropofagia particular, sendo esta mais específica, bem mais cosmopolita e resultado dessa tensão cultural facilitada pelo acesso à informação e às novas tecnologias, embaladas pela cultura midiática.
Essa gênese cultural do manguebeat pode ser encarada como a nítida expressão da cultura pós-moderna, haja vista o pós-modernismo ser a nova fase na cultura ocidental em decorrência da falência do Moderno, dessa forma o comportamento e a produção cultural pós-moderna revela-se como um novo patamar em relação ao racionalismo moderno. Logo, a cultura e o pensamento pós-moderno encorajam a intuição, a emoção e a diversidade, e a pós-modernidade se caracteriza pela busca pelo prazer momentâneo, rejeitando o padrão de verdade universal.
Todo a essência pós-moderna é viva em Chico. Muiito embora eu acredite que Chico nunca imaginou que sua obra fosse tão grande. Mas como ele falou certa vez:
"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente/ sem que sejam forjados para acontecer/ deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente/ deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes /como móveis inofensivos/ para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos/ sejam eles morais, fisicos ou psicologicos"
Citações:
MORAIS DE SOUZA, Cláudio. Da Lama ao caos: Diversidade, diferença e identidade cultural na cena Mangue do Recife. En publicacion: Informe final del concurso: Culturas e identidades en América Latina y el Caribe. Programa Regional de Becas CLACSO, Buenos Aires, Argentina. 2001.
HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Trad. Ângela Noronha. 6ª Edição Revista e Ilustrada. São Paulo: Paz e Terra, 2009. pp 42
ARAÚJO, Fabio. Os observadores da lama e do caos.
HOBSBAWN, Eric J. op cit. pp. 33
LEÃO, A. C. C. A maravilha mutante: batuque, sampler e pop no recife dos anos 90. Dissertação de Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação da Profa. Dra. Ângela Prysthon. Recife, 2002.
"Se o asfalto é meu amigo eu caminho como aquele grupo de caranguejos ouvindo a música dos trovões!"
Ok, ok. Estou na inatividade por muito tempo, eu admito. São os pecados capitais, vocês me entendem, não é?!
Não sei se todos sabem, mas após 5 anos de muitas leituras e labor, recebi da Universidade Federal de Pernambuco um papelzinho me autorizando a lecionar História em qualquer instituição de maneira legal. Além de História, já lecionei as disciplinas de filosofia e sociologia.
Reconheço-me como professor há exatos cinco anos. Ao longo desse período já possuí turmas de diferentes idades, credos e classes sociais. Contudo, confesso que tenho maior interesse em lecionar para jovens, haja vista estes possuírem uma mente em formação, possibilitando um maior entendimento do mundo, sem as visões solidificadas através dos anos e das frustradas experiências anteriores, assim como os preconceitos estabelecidos por gerações precedentes.
Ser professor é ter poder nas mãos, é ser um formador de opinião, é ter o coração eternamente jovem, é sentir-se um desbravador entre o desconhecido.
Sou feliz por transformar meus ex-alunos em amigos e não vejo nada que macule a ética com essa relação. Sempre fui um ser humano sério e respeitável, ciente dos meus deveres e do meu lugar na sociedade. Posso dizer também que muitas vezes sou um chato politicamente correto, introspectivo, muito embora seja do tipo que enxerga o copo metade vazio.
Tive o privilégio de ajudar na educação de cucas maravilhosas que dominarão o Brasil e o mundo daqui a alguns anos. Mas disso falarei em outro post (O que deixamos pra trás – Parte 2).
A comunicação, o mass-media, a internet e a freneticidade dessa vida pós-moderna, nos coloca frente-a-frente com situações absurdas, mas que não chocam, pois nos acostumamos com tudo e qualquer coisa.
Esperei muito tempo até a poeira baixar para falar sobre assuntos que ainda estão frescos na cabeça de todos.
No dia 04 de dezembro uma jovem atriz fez um vídeo e o postou no youtube, trata-se do insight consciente de Carolinie Figueiredo. No vídeo ela fala que fará uma diferença em sua vida (no caso, a dela), abrindo mão das “pequenices” que teimamos em colocar como o centro de nossa vil existência. Os comentários acerca de seu monólogo foram inúmeros, muitos deles estúpidos, acusando a garota de ter feito uso de substâncias que alteram a percepção do mundo, ou seja, drogas (sejam lícitas ou ilícitas).
Eu compreendo que a maioria dos usuários do youtube é jovem, me fazendo lastimar um comportamento deplorável dos mesmos. Se para eles introspecção é coisa de viciado... Prazer, eu sou viciado.
Todos sabem que jogo bola no time de Glauber Rocha e Marcos Mion. Somos loucos, anti-caretas, mas não usuários. Em matemática, menos com menos dá mais, logo, se já sou maluco por vida o que farei usando drogas? Não sou contra nada, na modernidade líquida tudo é liberado.
Em outros dois icebergs isolados vejo uma jovem morta numa catástrofe natural em Angra dos Reis e outra que planeja um assalto a sua própria mãe.
A estrela do céu é a encantadora Iumi Faraci, de 18 anos, que lágrimas colocou nos olhos de muitos de nós pelo seu jeito de ser que conhecemos de uma triste forma. Já a inqualificável é a estudante de direito Lauren Mayá Portella, de 19 anos, que tramou junto ao namorado um assalto a sua própria mãe. Felizmente, não foi mais um caso Richthofen, mas...
Certas vezes acho que estou velho e obsoleto e esse mundo é underground demais para mim. Acho que por isso que o Belchior sumiu por aí, pois não dava mais pra cantar que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
No mundo onde se ridiculariza uma atriz de pouca idade por esta se mostrar de certa foma racional, onde uma alma bondosa tem sua vida ceifada precocemente e outra foge após assaltar a própria mãe, é um mundo que Marx não imaginava quando disse que “tudo que é sólido desmancha no ar”.
Esse é nosso mundo.
Um mundo despreparado para superar as pequenices da vida.
“Ô, ô Seu Moço, do disco voador, me leve com você pra onde você for. Ô, ô Seu Moço, mas não me deixe aqui. Enquanto eu sei que tem tantas estrelas por aí.”
Possivelmente um dos anos mais importante das nossas vidas é justamente o ano que concluímos o Ensino Médio. Eu concluí o meu em 1999, logo, dez anos atrás.
Quando faço uma reflexão da minha vida, imaginando o que eu poderia ter feito pra que ela fosse diferente, remeto-me às escolhas que fiz em 1999.
Primeiramente eu decidi parar de estudar. O vestibular pouca importância tinha para a minha vida, pelo menos era o que queria que todos pensassem. Aprendi com Calvin (das tirinhas de Bill Watterson, Calvin e Haroldo) que a vida é bem mais fácil quando as pessoas não têm grandes expectativas sobre a gente. Porém, por mais que desejemos enganar os outros, não tem como mentir para nós mesmos. E como a vida bebe fortemente da causalidade, nada fica ao acaso. Causa e efeito, Rafael.
Em 1999 eu desisti de estudar, de fazer vestibular, de acreditar em mim, de acreditar nos outros, de me apaixonar, de ser humilde, da minha viagem de encerramento do Ensino Médio, da minha festa de formatura... Eu desisti de tudo.
Hoje, dez anos depois, pago cruelmente por todas essas escolhas. Embora eu tenha feito escolhas que me ferraram a alma depois disso, o ano o qual meu Delorien deveria retornar pra que eu mudasse uma coleção de fracassos era 1999.
Às vezes não percebemos que pequenas coisas são os pontos-chave das nossas vidas. Embora devamos acreditar que temos uma oportunidade de fazer tudo diferente a cada segundo, não é fácil colocar isso na prática. Acho uma grande estupidez quando se nega ao ser humano o direito ao ódio, à mágoa, a autopiedade, dentre outros sentimentos. Ok. Eu admito. Não são sentimentos nobres, mas são natos aos seres humanos.
Quando visualizo a situação de reencontrar meus antigos colegas do colégio, penso, “que porra eu vou dizer a eles? Que cresci e virei um fracassado?”
Foi minha escolha não ter feito medicina ou direito, para desgosto de toda uma família e uma gama de amigos íntimos. Mas o pior não foi isso. Depois de 99 me acostumei a não querer correr risco, adotei a filosofia do “foda-se”. Se qualquer situação me incomodasse – foda-se. Se alguém fosse me censurar – foda-se. Eu mandei tudo se fuder. Porém, quem acabou um fudido fui eu.
Não preciso nem dizer que essa filosofia jazeu em minha vida, visto que ela me colocou numa prisão durante dez anos. Será, então, que ao reencontrar meus antigos amigos devo dizer a eles que apertei o botão de “reset” da minha vida após passar os últimos dez anos numa das piores prisões do mundo?
Essa é a verdade. Passei os últimos dez anos numa prisão. Meu crime? Ter desistido de lutar, ter perdido minha luta por WO, ter fracassado por medo de fracassar. Não existe pior prisão que sua mente. Anos de análise e terapia servem para isso. Para que você liberte você de dentro de você mesmo.
Pois bem, amigos. Não sou doutor em nada, não tenho um único centavo, nem tenho nenhum grande feito para contar, a não ser que conquistei algumas vitórias dentre as enxurradas de fracassos. Perdi o medo de me apaixonar e casei com a mulher mais incrível que eu poderia ter (quem me aguentaria se não fosse incrível?); fiz amigos excepcionais, inteligentíssimos e que não estão nem aí e nem perto de chegar para os meus fracassos, ou melhor, estão sempre do meu lado, me ajudando a dar a volta por cima; passei a valorizar mais a minha família, base pra tudo de bom que sou, fui e serei.
É clichê, mas a vida é cíclica, sempre tem um ponto de retorno. Estou nesse ponto. Mais uma vez tenho que correr atrás de tudo. Voltei a ter um corpo nojento, não tenho emprego ou carreira, nem dinheiro suficiente pra comprar um Big Big, mas hoje tenho maturidade pra enxergar a vida de outra forma. Já tive um corpo sarado, tive estabilidade econômica e profissional, mas pior do que não saber perder é não saber ganhar. Agora eu sei, estou aprendendo a ser um gauche melhor.
Sou apenas um idealista, e idealistas são assim, meio estranhos. Mas nunca desistem.
“Não diga que a vitória esta perdida. Se é de batalhas que se vive a vida”
Na segunda-feira, 15 de dezembro, fui a um evento literário na Gerência de Literatura e Editoração do Recife. O evento tinha por objetivo o lançamento dos livros vencedores do Prêmio Literário Cidade do Recife 2007 do Conselho Municipal de Política Cultural.
Sim, que massa pra você, Rafael. E eu com isso?
Calma, explicarei.
Como alguns de meus amigos sabem, sou uma pessoa extremamente famosa. Porém, até meu pai, às vezes olha na minha cara, fica contemplativo e me chama de “esse menino”. Logo, quando vou a algum lugar onde todos se conhecem, mas não fazem ideia de quem eu sou, instaura-se a situação do avulso.
Antes de eu sair de casa minha mulher até me questionou: “tu num fica avulso nesses lugares, não?”.
Bem, eu nunca me achei avulso em canto nenhum. Não sou o supra-sumo do ser simpático, mas sou um pensador. Contudo, em determinados momentos vivenciei o momento “avulso”.
É um tal de pegar o celular, olhar a lista de contatos sem-mais-nem-porque, conferir as horas duas vezes a cada minuto, olhar pro teto, buscando ar pra respirar, buscar os conhecidos pra trocar sorrisos pelo menos... Situaçãozinha embaraçosa.
Porém, algo devo falar com sinceridade. Eu fui recebido com extrema simpatia do grande Cristhiano Aguiar. Ele é um lorde. Apresentou-me algumas pessoas, todas simpáticas, fiz contatos interessantes, mas algo me perturba – elas se lembrarão de mim no próximo evento?
Ok! Eu admito. Não escrevo sério há tempos, nem como historiador nem como escritor. Mas sou isso, amigos. Nem tão bom, mas sou. Ano que vem eu prometo deixar de ser o famoso-QUEM?.
Tenho dois livros no prelo e outros no quengo. Então, por favor... Hello...Hello...
Desde eu pobre infante de cabelo-de-banda e nariz escorrendo que me chamam de arrogante, boçal, pernóstico e outros tantos adjetivos que me (des)qualificam.
Pois bem, dar-me-ei a cara à tapa. Sou um tanto quanto difícil, admito. Mas nem de longe sou um tampa, seja tampa-de-Crush ou tampa-de-furico (furico é palavrão? E regionalismo, é?).
Sou individualista pra cacete, perfeccionista ao extremo, odeio trabalhar em equipe, em grupo, em conjunto, em parceria, em turma. Trabalho melhor sem ninguém fungando no meu cangote ou lendo o que escrevo por cima do meu ombro. Mas fazer o que?
Sabemos que nesse competitivo e globalizado mundo quem não se adaptar se extinguirá. Darwin e os darwinistas (inclusive os sociais) entendem bem sobre adaptação e evolução. Só os mais aptos sobrevivem.
Porém, uma indagação caminha perdida entre meus pensamentos noires tão repletos de questões filosóficas – devemos nos condicionar a pensar igual a todos?
É claro que não, Rafael. Você é sempre tão fatalista! Tão pessimista! – exclama você.
Pode até ser que eu seja tudo isso – fatalista, pessimista, arrogante, boçal, pernóstico, e metido: à tampa-de-Crush, tampa-de-furico, à besta, à merda.
Contudo, eu não sou absolutamente ninguém. Exatamente isso que vocês leram. EU NÃO SOU ABSOLUTAMENTE NINGUÉM. Pra falar a verdade eu estou me convencendo que tenho uma inteligência mediana e que sou o típico brasileiro Homer Simpson que o âncora do JN se referiu tempos atrás.
Eu sempre fui fã de pessoas que eram exponenciais e até certo ponto arrogantes. Para exemplificar utilizarei “o” cara do futebol dos últimos 20 anos – Romário. Qualquer pessoa que tinha 12 e 13 anos em 1994 idolatraram (e/ou idolatram) esse cara. Mas convenhamos, vai ser convencido lá no meu time de society. Todos conhecem as polêmicas declarações do “deus” do futebol. Bem, elas não vêm ao caso agora.
Todos cobram resultados. Romário era o cara dos resultados. Rafael... Rafael... é... ... ... Rafael é literalmente uma sequência de reticências. Nunca provou nada pra ninguém, vive reclamando da vida, esta sempre em crise (sobretudo existencial), escreve e não publica, não escreve, só pensa, não pensa, só dorme, não dorme, cria um blog, o usa de analista, ninguém lê, quem lê não comenta...E, Rafael? Rafael continua o mesmo. Mas os seus cabelos... quanta diferença.
“O que é que houve, meu amor, você cortou o seu cabelo? Foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar”.
Esse é o meu desejo – mudar. Mudar a imagem rotulada e pré-estabelecida deste pobre redator de sinais gráficos. Se um dia serei alguém a vida dirá. Mas só quero no momento aquele vislumbre velho de sorrisos tímidos da mais boba felicidade.
“O que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”
Mais uma vez estou sentado em frente ao computador perdido em meus pensamentos noires tão teus. Acontece, caro amigo, que fui acometido de uma profunda amnésia, pior que aquela presente no filme ‘Memento’ dirigido por Cristopher Nolan em 2000. Embora Leonard estivesse desesperado no filme e não soubesse quem eram seus amigos, inimigos e a verdade que o movia, ele sabia o que buscava. Eu nem isso sei.
Sobre o que falava os livros de James Joyce? Como eram mesmo os conflitos psicológicos presentes nos livros de Dostoiévski? E o modo de enxergar o mundo que Machado tinha, como era? Não lembro mais nada de Nietzche. Estou perdido. Sem dúvida acho que esqueci disso tudo quando me perdi nos ‘Diálogos’ de Platão, ou será que foi depois que li o ‘Manifesto Comunista’ de Marx? Com certeza não. Isso eu já havia esquecido depois dos ‘Paraísos Artificiais’ de Baudelaire.
Sinto-me tão só, meu amigo. Passo horas assistindo filmes de ficção científica – ‘Blade Runner’; ‘Inteligência Artificial’; ‘Eu, Robô’; ‘Controle Absoluto’; ‘2001 – Uma Odisséia no Espaço’; ‘Star Wars’, as duas trilogias e os desenhos das ‘Guerras Clônicas’ também; ‘Matrix’, então, nem se fala, já decorei todos as falas do ‘Mr. Anderson’, perdão… ‘My name is Neo’.
As coisas estão assim, meu guru. Queria poder te dizer mais, mas estão batendo na minha porta agora e preciso atender.
Até breve e abraços.’
– Pois não!
– Estou procurando o Sr. Rafael?
– Da parte de quem?
– Eu tenho um telegrama urgente para ele.
– Entregue a mim. O senhor está falando com ele.
– Assine aqui, por favor.
– Obrigado.
– Obrigado ao senhor.
“Prezado Sr. Rafael…”
Com certeza, vem problema. “Prezado num-sei-que-lá” é estresse com certeza.
“… verificamos em nossos registros que o senhor está negativado em mais de quinze instituições por falta de pagamento aos empréstimos junto a bancos, a cartão de crédito, à financeira…”
“NEGATIVADO”??? O que é isso? Me baniram do sistema? Não existo mais, é isso? Estou devendo umas contas, eu sei. Mas perdi meu emprego, minha empresa faliu. O que eu posso fazer? É a crise mundial.
Sinceramente eu não aguento mais tanta mediocridade. Essa vida cheia de infortúnios e mundanismos. Se o simples fato de existir nesse competitivo mundo não fosse o bastante, aparece uma novíssima fobia a cada dia. Provavelmente a mais recente é a fobia do desemprego. Admito, sou portador de inúmeras fobias e essa é a minha mais nova aquisição. Durante toda a minha vida acreditei que apenas com os estudos chegava-se a algum lugar e ser-se-ia alguém. Infelizmente eu estava quadrada e redondamente enganado. Não apenas eu, mas todas as pessoas que falam isso cotidianamente. Estudei numa escola daquelas que se importa com o IAV, o Índice de Aprovação no Vestibular, a síntese do massacre estudantil que anualmente glorificam e frustram inúmeros jovens e velhos estudantes que almejam um lugar ao sol, sobretudo numa universidade pública.
Ah, que pena! Quanta ilusão. Quem disse que entrar numa universidade é sinônimo de emprego garantido? Quem disse que estudar numa universidade pública é um enriquecedor curricular? Quem disse que iremos ser realmente quem gostaríamos de ser quando éramos crianças? Quem disse que seremos profissionais realizados? Quem disse tudo isso? Realmente eu não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza… Eu quero matar meu orientador vocacional, ele era uma fraude.
Quer saber?! “Eu também vou reclamar”, ou melhor, vou escutar Raul que é o melhor que eu faço.
“Dois problemas se misturam A verdade do Universo A prestação que vai vencer Entro com a garrafa De bebida enrustida Porque minha mulher Não pode ver
Olhos os livros Na minha estante Que nada dizem De importante Servem só pra quem Não sabe ler
E as perguntas continuam Sempre as mesmas Quem eu sou? Da onde venho? E aonde vou dá?
E todo mundo explica tudo Como a luz acende Como um avião pode voar Ao meu lado um dicionário Cheio de palavras Que eu sei que nunca vou usar
Mas agora eu também resolvi Dar uma queixadinha Porque eu sou um rapaz Latino-americano Que também sabe Se lamentar
E sendo nuvem passageira Não me leva nem à beira Disso tudo Que eu quero chegar -E fim de papo!”
Sem dúvidas, meu amigo Raul. Só você me entende. É assim que eu me sinto. Embora a sua queixa tenha sido feita há trinta anos e eu nem sonhara em vir ao mundo. Mas… “A coisa tá assim”. Ou filmes ou livros. Embora algumas vezes eu não entenda NADA que está escrito. Tem coisas que se apresentam com tal incongruência inexorável que só um ortodoxo ou um douto na arte de desmistificar a hermenêutica da filosofia metafísica seria capaz de entender a própria cosmogonia universal a luz do racionalismo druida ou oráculo de civilizações desaparecidas antes do armagedon ou qualquer escatologia apocalíptica nos idos tempos onde à etimologia das palavras não tinham tanta importância quanto à explicação do zeitgeist de Johan Herder ou Georg Hegel muito antes da Crise da Razão Histórica e quiçá do Fim da História.
Como diria a minha irmã – “CULTURA INÚTIL!”.
E olhem que eu nem disse nada. Poderia muito bem partir da Teoria dos Sistemas para a Teoria do Caos, passando pelos Simulacros de Jean Baudrillard, enganando o diabo de Goeth antes que os satanistas laveyanistas me convencessem que o dogmatismo deles era mais plausível que o ceticismo e que nenhuma ciência cognitiva me explicaria melhor o mundo como vontade e representação de um pessimista como Schopenhaur ou como um trágico como Nietzche, muito embora Deus estivesse morto, “assim falou Zarathustra”. Se for mentira é dele e não minha. Isso porque me perdi no primeiro paradigma ontológico (não antológico) da realidade semiótica ora exposta, visto que tudo que fora exposto anteriormente serem bem mais amplos que o holismo aristotélico.
UFA! Sabe de uma coisa?! As coisas são bem mais fáceis quando não pensamos em nada. Eu não tenho dinheiro pra nada mesmo. A verdade do universo ninguém sabe também. Então, vou assistir Backyardigans que pelo menos me distrai.