segunda-feira, 26 de maio de 2014

TÁ BOM ou A HISTÓRIA COM FIM


Em 31 de dezembro de 2011, eu disse adeus a este blog.
Contudo, poucos meses depois eu voltei a escrever neste ambiente virtual.
Pois bem, farei 33 anos em pouco mais de 3 meses... Agora vejo que é a hora de parar.
Não terá choro nem vela.
Este blog foi mais meu amigo que 99,99% dos amigos que tive nesta vida.
Mas o adeus muitas vezes é adiado quando acreditamos no amor.
Ele me deu muito amor.
Foi através dele que senti a catarse.
O meu blog e eu sabemos que não sentirão nossa falta.
O máximo que pudemos despertar no coração de algumas pessoas que leram estas linhas aquáticas foi a mais sublime dor-de-dente.
Dessa forma, seguiremos um novo rumo em nossa vida.

Muito grato aos que aqui estiveram.

Sou muito grato mesmo.

"Adeus! Au revoir! Hasta! Good Bye! Arrivderci..." 


CAMINHOS À FRENTE ou ATENDENDO O CHAMADO


Em qual ano devo pontuar o meu interesse lascivo e latente pelas Letras, pela Poesia, pela Literatura?

Se eu escolher o ano de 1987, estaria colocando como marco histórico da minha vida a primeira poesia que produzi. Ela era bastante bobinha, mas, convenhamos, eu tinha apenas seis anos de idade. Muito embora eu possuísse um português exemplar de primeiro aluno da classe.

É possível que em toda a minha vida essa seja a única poesia que jamais esqueci. Pois, embora eu tenha sido amaldiçoado com uma memória espantosa, não consigo decorar absolutamente nada.

Paradoxo?

Não mesmo.

Talvez 1987 não seja o ano chave para esse mergulho nas profundezas abissais (Ah! Pleonasmo!) do mundo dos significados fornecidos por caracteres similares.

Dez anos depois, eu, um estudante do Ensino Médio de um colégio focado no índice de aprovação no vestibular, fiz um teste vocacional e o curso que me foi sugerido foi Letras.

O que???

Letras???

Nem fodendo que faço Letras.

Amo História, mas todos esperam Direito... Farei Direito!

Garoto idiota!!!

Pois bem, fiz Direito e desisti após não obter o êxito que outras pessoas queriam para mim.

Amava História.
Estudei História.
Curso que me proporcionou conhecer as pessoas mais importantes da minha vida que não possuem o mesmo sobrenome que eu.

Formei-me Historiador (Já existe essa profissão?)... É melhor dizer que virei professor de História (Essa profissão eu sei que existe).

Avanço no tempo, após passar por inúmeras coisas na minha vida pessoal, chegando ao ano de 2009.

Em 2009, voltei a me interessar pelos estudos acadêmicos, inclusive indo a eventos literários. Nestes eventos conheci pessoas admiráveis como Cristhiano Aguiar, um jovem pesquisador, escritor em ascensão e que demonstrava o amor pela literatura. Cris também trabalhava no GOLE - Gerência Operacional de Literatura e Editoração da Fundação de Cultura da Cidade do Recife.
O GOLE organizava o Festival Recifense de Literatura – A Letra e a Voz. Neste festival tive a oportunidade de participar da Oficina de Literatura de Raimundo Carrero, onde conheci além do próprio escritor, jovens talentos, amantes das letras como a hoje poeta Luna Vitrolira, campeã da I Peleja do Festival Internacional de Poesia do Recife, organizado pelo escritor e Coordenador de Literatura da Fundarpe, Wellington de Mello. Em 2009, Luna era apenas Gabi, uma menina de 16 anos com grande sensibilidade e talento.
Eu já escrevia muito naquele ano, chegando inclusive a ser publicado pela primeira vez em antologias – uma poesia, uma crônica e um conto. Mas eu não era absolutamente ninguém perto daqueles que admirava.
Recife era uma cidade efervescente com grupos literários como o Urros Masculinos e o Vozes Femininas, só para citar dois que me veem na cabeça de imediato.
A Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco, que na época era realizada em Porto de Galinhas, bem como a Freeporto, que era um contraponto organizado por Wellington, demonstravam o quanto existia público produtor e consumidor para a arte das letras. Além da Bienal Internacional do Livro que ocorrera naquele ano.
Aquilo tudo me fascinava. O desejo de criar e de estudar foi aguçado a tal ponto que me rendi. Contudo, por motivos pessoais não obtive êxito na minha seleção de mestrado daquele ano. Desencanei por mais alguns, deixando em stand-by aquilo que me movia.
Dois anos mais tarde iniciei uma especialização em Cultura Pernambucana e, finalmente, o Mestrado em Teoria da Literatura.
Hoje, 26 de maio de 2014, “sou” Mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, além de Especialista em Cultura Pernambucana e Historiador. Bem como possuo mais algumas publicações desta arte tão antiga que é capaz de mudar mentes e a forma de apreender o mundo.
Talvez, hoje eu já seja um exemplo para algumas pessoas. Mas ainda engatinho na literatura, o caminho de tijolos amarelos que sempre esteve a minha frente esperando para ser trilhado.


O que será, que será / Que andam suspirando pelas alcovas / Que andam sussurrando em versos e trovas

sábado, 17 de maio de 2014

QUANDO ÉRAMOS LARVAS ou PROJEÇÕES

Quando éramos larvas
Mas só quando éramos larvas
Sonhávamos que éramos girinos
Com um rabo alucinado
Tal qual cachorro

Cresceríamos sapos
Não borboletas
Contentávamo-nos com as do estômago
Seu bater de asas reluzentes – psicodélicas
Sonhos
Onirismo de gente – carente

Encantava-nos o sapo
Sua rápida – gigante língua
Olhos esbugalhados
na beleza errônea
Pele fria – viscosa
O salto – sonho
O trampolim para a vitória

Crescemos sapos
E o nosso papo
passou a incomodar
Os olhos agora fitavam
o pólen das flores
a semeadura
a vontade de voar

Quando éramos larvas
Mas só quando éramos larvas
Queríamos o impossível
Agora sôfrego
O sonho louco
É borboleta no ar

"Sonhos que podemos ter"

quarta-feira, 12 de março de 2014

TEARS ou FEARS

Às vezes elas rolam
meio em fúria
meio em dor

A água e o sal
oxidam os sentimentos
E os cardiácos batimentos
se confundem

A mente não é imune
não é terna

Os repetitivos,
incansáveis pensamentos
se entregam

O sonho embarca a nau
Em revolto mar
É caos

O ópio desiste da dor
A vida é aceita
Sem oníricas razões
desfeita

"Molham o vidro da janela"

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

SINTONIA ou SIN TON ÍA

Sin ton ía
mis versos del poeta
loco
cómo Leopoldo María Panero

Pasiones explícitas
en corte de fotos
un contorno del abismo

Fue cruel
una mentira fatal
hecho me enfermo
me mató

En versos
sangró mi pecho
peregrino corazón
anillo
sin dedo

sin ton 
ía

"un loco de ideas raras / muy original / eres sentimental"

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

NÃO! HÁ OBRA! ou TAMARINEIRA

Dedicado ao Doida de Pedra - projeto que está sendo desenvolvido em Recife/PE dentro do Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano (HUP)


Apenas loucos - chamava
Em vão - gritava
Clausuras na mente
Oh! Alienista doente!

De Hipócrates a hipócritas
Julgo de fantasias, lirismos
Anormais serventias
Tudo vão
Retiraram as estrelas
Deram-me o chão

Maria de França e Checov me acompanham
Aposentos e celas
Cavalos alados flutuam
em romances, novelas

Não há mais choques
Seria chique
A  não castrada dor
Ecoa ainda
Versos de Artaud

No eterno teatro da crueldade
Sou cavaleiro Quixote
Da maldade - combatente
Náufrago de uma nau errante
Um voz gritante - calada
Silenciada pela tortura
Sou mais Tamarineira
Sou mais Loucura

"Eu... aprendendo a ser louco"

domingo, 24 de novembro de 2013

ENTREVERDADES ou VOLTEI A CONTAR



Ele entrou no banheiro. Não sabia direito o que estava acontecendo com sua mente e seus sentimentos. Estava apenas tomado por uma sensação que não compreendia muito bem. Era uma mistura de angústia, dor, medo, pavor, insegurança, angustiosidade, sem sequer saber se esta palavra existia. Se não, paciência. Viraria neologismo.
Ele estava com angustiosidade.
Olhou no espelho e tossiu uma tosse seca. O estômago começava a embrulhar. As dores tornavam-se cada vez mais frequentes. 

O que era isso? Meu deus, será que o fim está próximo? - como sempre, temeu.

Passou as mãos pelo rosto. Sentiu vontade de chorar. Puxou os cabelos. Subitamente desejou incontrolavemente de extirpar-se de todos os seus pelos. Pegou uma máquina e quis se raspar por completo. Começou pela sobrancelha. Ao ver que uma já não mais existia sorriu um sorriso desesperado, admirado com o que tinha feito. Viu-se horrível e imaginou o que os amigos diriam quando o visse. “Que porra é essa, cara?”. Eles o tomariam como louco. Talvez fosse o melhor, assim eles compreenderiam que algo não estava nada bem com ele. Quem sabe o ajudariam. Não. Isso é impossível.
Ele já andava confuso há milênios.

Meus deus, preciso de um cigarro. Onde estão meus cigarros? – disse a si mesmo.

Mais tosse, desespero e enfim um vômito de vazia barriga sujando toda a pia e o espelho. O gosto amargo toma conta de sua garganta e sua boca. Seu nariz sujo de vômito o incomoda. O cheiro nem tanto.
Bochecha uma água qualquer, o gosto amargo ainda se faz presente. Assua o nariz e olha o seu rosto. Estava sem uma sobrancelha. Estava horrível. Sorrio mais uma vez em desespero, transparecendo o que sentia por dentro.
Caminhou até a cozinha e pegou uma garrafa de whisky já meio vazia. Colocou em sua boca e engoliu de uma só vez. Seu estômago queimava por completo.

Nada está em ordem.

Viu-se perdido em universos sem sentido. O que o levou até ali?

Tomou conta da narrativa. Ele explicaria melhor.

Perco-me em lembranças que desconheço. Seria o passado ou o futuro? Estou inseguro. Medo, medo, medo e mais medo. Sou um garotinho assustado.
Nada tem sentido.
Seria o amor? O ciúme? Os demônios?
Confesso meus pecados ao jovem Werther. Ele me aconselha uma única bala no peito. Seria lindo. Não precisaria me preocupar. Faria uma carta e diria que morri por amor e culparia Werther como autor intelectual. Nesse momento Hamlet me censura e manda-me refletir.
Choro. Um choro preso na garganta desde a infância. As lágrimas teimam em não cair. Ficam presas. Deixam apenas meus olhos brilhando. Sinto o ardor. Sinto o nariz doer. Não sei chorar.

Grito.

Estou enlouquecendo, meu deus.

Um estilete. Hamlet sempre falou da quietude de um simples estilete. Afinal, estilete eu tenho, revólver não. Werther, esse suicídio você perdeu, ele é de Hamlet.

Meu deus, não. Não posso me matar.

Seria encontrado sem sobrancelha. Tomar-me-iam como louco e suicida. E todos que gostam de mim, como ficariam? Não! Não posso fazer isso. Preciso apenas de um pouquinho de drogas. Um baseado, talvez. Meu corpo ficaria mais lento e minha mente mais calma.

Senhor, e se eu voltasse para a igreja?

Se eu dissesse a Jesus – Pai, me perdoa.

Aprenderia a chorar. Eu choraria muito e Ele compreenderia tudo que está em minha alma, meus tormentos. Afinal, Ele sempre sabe de tudo. E não sou um mal sujeito.

Pronto!

Está tudo resolvido.

Um banho!
Preciso de um banho. Tudo fica melhor depois de um banho.

Band-aid. Um band-aid, por favor.

Saio à rua.

De bate-pronto encontro um conhecido.

Que porra é essa na tua cara, velho?

Sorrio e respondo:

Nem te conto. Fiz uma aposta idiota e perdi minha sobrancelha numa partida de sinuca. Leseira do caralho, não é?

Apenas rimos.

Tudo está bem.

"Não foi nada. Eu não fiz nada disso...Bicho de sete cabeças"