Treze anos atrás morria um dos maiores gênios da música pernambucana e brasileira, Chico Science. Francisco de Assis França, do alto de seus 30 anos, perdia a vida num acidente fatal em pleno domingo. Recordo muito bem desse dia. Eu estava assistindo um filme na Band/Tribuna, era o Risco Fatal, do Stallone, quando num plantão anunciaram o falecimento de um dos meus ídolos. Como de costume, os bons morrem cedo.
Cresci. E comigo também cresceu o fascínio por todo o Manguebeat.
Ano passado tentei seleção de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE com um projeto que abordava o Movimento Mangue como tema. Porém, eu desconhecia a fascinação de tantos futuros acadêmicos. Ignorância minha, admito. Existem aproximadamente uns 80 trabalhos sobre a referida temática. Por um lado isso é ótimo. Foi péssimo pra mim porque eu não estava inserido nos quesitos do ineditismo. Mas isso é a vida. Lamento, sobretudo, a parca divulgação (pra não dizer nenhuma) dos resultados obtidos com esses trabalhos.
Para o sociólogo e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Cláudio Morais de Souza:
“O manguebeat enquanto fenômeno cultural é resultado da confluência de diversas experiências estéticas/sociais, de um grupo de jovens que através das músicas por eles produzidas começam a delinear uma nova situação (se não diferente), onde o campo artístico se mostra um terreno fértil na produção de uma atitude perceptiva, marcada por um lado, pela necessidade de conhecer o outro e experimentar o diferente, por outro, e ao mesmo tempo, conhecer-se e tornar-se conhecido como parte de uma sociedade marcada por um contexto urbano de forte exclusão social”
O fato é que o “mundo” do manguebeat não consiste apenas de sons produzidos por uma determinada combinação de instrumentos tocados de uma forma característica, é a junção disso com a cultura ao redor, levando-se em conta todos os níveis de interpretação e heurística para a palavra “cultura”, da popular a de Raymond Willians. Sobretudo, se considerarmos o movimento mangue como elo de ligação responsável por unir elementos de manifestações (pós)modernas e globais a elementos da tradicional(ista) cultura popular pernambucana, transformando de forma categórica a realidade local e despertando a participação política da sociedade. Tal participação política é vista por alguns membros da imprensa como a força cultural responsável pela divulgação da política de “esquerda” (PT e PCdoB) que está no seu terceiro mandato consecutivo nas prefeituras de Recife e Olinda, berços do Manguebeat, assim como o Movimento Armorial era o divulgador cultural para o governo de “direita” anterior (PMDB / PSDB-DEM). Utilizando Feathestone para contextualizar o exposto:
“Houve uma mudança mais geral na atitude dos governos nacionais e locais, fundações e corporações, que começaram a perceber as artes como algo socialmente útil. Em suma, o valor econômico do capital cultural aumentou; a partir da década de 60, os artistas deixaram de ser vistos como uma contracultura boêmia, incômoda e transgressora, passando a ser tratados pelos políticos, especuladores e planejadores urbanos como uma vanguarda diferente, que abriu caminho para o redesenvolvimento em larga escala de áreas urbanas baratas e decadentes, mediante a gentrification”.
O Movimento Mangue passa a existir num contexto caracterizado pela ofensiva econômica neoliberal que não contemplava as demandas sociais, abrindo espaço para o surgimento de movimentos de rebeldia e contestação. O Manguebeat vem para expor entre outras coisas a situação de exclusão social, violência e fome dos bairros de periferia de Recife através de sua arte. Utilizando expressões do historiador Eric J Hobsbawm:
“A arte popular é mito e sonho, mas também é protesto, pois o comum das pessoas tem sempre alguma razão para protestar... A arte popular genuína, excepcionalmente vigorosa e resistente, realmente funciona e modifica o mundo moderno, e quais as suas conquistas e limitações”.
Contudo, como música e arte vivem da indústria cultural, o “mercado” vê na valorização do periférico, do exótico, do excêntrico, uma oportunidade de lucro. A indústria simplesmente descobre o mais lucrativo para processar e processa. É próprio da civilização uma busca de exotismos de todos os tipos. A cultura popular nos países urbanizados e industrializados há muito tempo consiste em entretenimento comercializado, padronizado e massificado, transmitido por meios de comunicação como imprensa, a televisão, o cinema, entre outros, produzindo o empobrecimento cultural e a passividade, bem como o consumo de cultura pré-fabricada. Contudo, este é um assunto que deve ser tratado com bastante delicadeza para evitar a utilização de paradigmas nacionalistas e muitas vezes preconceituosos e irresponsáveis.
Como o jornalista da Revista Continente Multicultural, Fábio Araújo, falou uma vez:
“O fenômeno é recente demais para que se façam análises definitivas. Mas, além de devolver Pernambuco ao centro das atenções, resgatar a auto-estima da população e estimular um renascimento cultural que repercutiu em todo o país, o Manguebit deixou pelo menos outro legado: uma série de estudos acadêmicos, que procuram entender o que aconteceu e situar o movimento nos contextos nacional e internacional.”
Possivelmente nunca se esgotarão as interpretações e as análises de uma temática tão rica quanto à do “movimento cultural” desenvolvido no Recife durante a década de 1990. Tal qual a Bossa Nova e a Tropicália o Manguebeat foi amplamente estudado, haja vista o número elevado de trabalhos acadêmicos sobre o tema nos últimos dez anos.
Embora o pensamento de Hobsbawm exposto a seguir tenha sido divulgado há 50 anos e relaciona-se ao Jazz norte-americano, nenhum pernambucano do final do século XX ficaria surpreso caso se deparasse com o seguinte argumento:
“Nossos dias e nossa cultura são carentes de transfusões de sangue periódicas, para rejuvenescer a cansada e exaurida ou enxágue arte de classe média, ou a arte popular, que tem sua vitalidade drenada pela degeneração comercial sistemática e pela superexploração”.
Como é sabido, o Recife e até mesmo o Brasil estavam carentes de algo que os tirassem da inércia, e tudo que os jovens do mangue desejavam eram ação. Com isso a idéia de ‘movimento’ pode ser utilizada para representar o fim de uma inércia na música recifense. E não a de “movimento” como o rock, por exemplo, com raízes e seguidores em todo o mundo e há muitos anos.
O manguebeat já foi estudado como um movimento híbrido, pós-moderno, globalizado, mundializado e dono de uma antropofagia particular, sendo esta mais específica, bem mais cosmopolita e resultado dessa tensão cultural facilitada pelo acesso à informação e às novas tecnologias, embaladas pela cultura midiática.
Essa gênese cultural do manguebeat pode ser encarada como a nítida expressão da cultura pós-moderna, haja vista o pós-modernismo ser a nova fase na cultura ocidental em decorrência da falência do Moderno, dessa forma o comportamento e a produção cultural pós-moderna revela-se como um novo patamar em relação ao racionalismo moderno. Logo, a cultura e o pensamento pós-moderno encorajam a intuição, a emoção e a diversidade, e a pós-modernidade se caracteriza pela busca pelo prazer momentâneo, rejeitando o padrão de verdade universal.
Todo a essência pós-moderna é viva em Chico. Muiito embora eu acredite que Chico nunca imaginou que sua obra fosse tão grande. Mas como ele falou certa vez:
"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente/ sem que sejam forjados para acontecer/ deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente/ deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes /como móveis inofensivos/ para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos/ sejam eles morais, fisicos ou psicologicos"
Citações:
MORAIS DE SOUZA, Cláudio. Da Lama ao caos: Diversidade, diferença e identidade cultural na cena Mangue do Recife. En publicacion: Informe final del concurso: Culturas e identidades en América Latina y el Caribe. Programa Regional de Becas CLACSO, Buenos Aires, Argentina. 2001.
HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Trad. Ângela Noronha. 6ª Edição Revista e Ilustrada. São Paulo: Paz e Terra, 2009. pp 42
ARAÚJO, Fabio. Os observadores da lama e do caos.
HOBSBAWN, Eric J. op cit. pp. 33
LEÃO, A. C. C. A maravilha mutante: batuque, sampler e pop no recife dos anos 90. Dissertação de Mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação da Profa. Dra. Ângela Prysthon. Recife, 2002.
"Se o asfalto é meu amigo eu caminho como aquele grupo de caranguejos ouvindo a música dos trovões!"







